“Lady Bird: A Hora de Voar” em Análise de Gabriela Fonseca, Estudante da Oficina de Crítica


A Seção Pensamento deste site  publica análise de Gabriela Fonseca, aluna de Marcelo Müller, na Oficina de Crítica da Escola de Cinema Darcy Ribeiro, sobre o filme Lady Bird: A Hora de Voar.

Em Lady Bird: A Hora de Voar, Sacramento é pano de fundo e personagem, além da cidade natal da diretora estadunidense Greta Gerwig. Mais referencial do que autobiográfico, o primeiro filme inteiramente dirigido por Gerwig expõe traços da sua vida adolescente: ela, de fato, estudou em colégio católico, namorou um menino que se descobriu homossexual, possuiu intenso vínculo com a mãe e, claro, cresceu em Sacramento, na Califórnia. A forte influência da cidade à construção da protagonista aproxima Lady Bird de outro recente longa, Columbus, de Konogada. Porém, enquanto neste há frieza e estagnação, em Lady Bird há muito dinamismo e vitalidade, características que refletem as próprias vidas das personagens.

A produção dialoga, também, com Meninas Malvadas, escrito por Tina Fey, muito popular entre os adolescentes nos EUA/Brasil no início dos anos 2000, mesma época em que se passa a história de Christine (Saoirse Ronan). A referência fica clara nas cenas ambientadas no ginásio do colégio, na relação da protagonista com a matemática e até no personagem do treinador de futebol. Tal alusão ajuda a remontar os anos 2000, a criar no expectador a sensação de familiaridade e faze-lo apoiar o caráter feminista do filme, aparentemente singelo, elaborado por Gerwig.

Ao reconhecer esse viés feminista de Lady Bird, deduzimos que não é vã a escolha de abordar um relacionamento entre mãe e filha. Um dos primeiros planos mostra Marion (Laurie Metcalf) e a filha, Christine, deitadas na cama de forma quase espelhada. Esse momento e a cena seguinte – as duas voltando para casa, de carro – que abrem o filme, marcam as similaridades inevitáveis que iremos acompanhar no desenrolar da história. Ambas possuem posturas firmes, há respeito mútuo e uma dinâmica frenética nessa relação que ora está mansa, ora caótica. Gerwig apresenta personagens femininos barulhentos, exigentes e fortes, sendo a mãe e a filha estandartes desses comportamentos.

Em contraste a isso, existem a calma, a melancolia e a docilidade presentes, reveladas particularmente nos personagens masculinos. E não são quaisquer homens, mas aqueles cujos papéis podem exercer influência na formação de uma mulher: o pai, os namorados, o professor e – por que não? – o líder religioso. É de se esperar – partindo do princípio de que pertencemos a uma sociedade patriarcal – que desses homens irrompam discursos pragmáticos, que transmitam confiança e vigor.

Mas não é essa a abordagem de Gerwig. O sensível padre é um exemplo disso. Em uma cena tragicômica, ele é o primeiro a chorar no exercício de teatro, o que já seria um prelúdio de sua repressão emocional. Mais tarde, o vemos no hospital, revelando um aparente caso de depressão. E, mais adiante, emotivo por ninguém ter apreciado sua peça, desabafa: “Eles entenderam nada”.

Percebemos essa sensibilidade, também, no pai (Tracy Letts), que esconde sua depressão há anos e se sente constrangido de expressar sentimentos à filha; no namorado (Lucas Hedges), que omite dolorosamente sua homossexualidade; também no segundo namorado (Timothee Chalamet, de Me Chame Pelo Seu Nome), adolescente que lida com a doença do pai e, talvez por isso, enxerga a vida de maneira pessimista e sem ânimo; e até no professor (Jake McDorman), benevolente e sem muita autoridade.

Esse olhar sensível e desconstruído da figura masculina não somente quebra o estereótipo do homem “macho”, que não chora, como realça a autenticidade e segurança de Lady Bird e da mãe. Greta Gerwig faz uma inversão sagaz de papéis que, por ser apresentada de forma um tanto sutil, colocada muitas vezes em contextos cômicos e com uma montagem acelerada, não faz o público sequer questioná-la. Assistimos a homens muito sensíveis e mulheres muito fortes como se esse fosse um lugar comum no cinema.

Outra inversão ocorre na escola, quando Lady Bird escuta de sua orientadora, uma mulher negra, que ela não conseguirá entrar em determinadas universidades. Como se aqueles fossem lugares que não coubessem a ela ocupar. Não à toa uma mulher negra diz isso a uma mulher branca. É um comentário sarcástico e crítico de Gerwig sobre uma sociedade arcaica que tende a perpetuar a conservação de (homens) brancos ocupando os espaços de poder.

Tais inversões e quebras de estereótipos se assemelham, também, à “vida real”. E esse realismo de Lady Bird deve um pouco ao movimento indie norte-americano, o mumblecore, do qual a diretora participou ativamente como atriz, roteirista (Hannah Sobe as Escadas, Frances Ha, entre outros) e, inclusive, codiretora (Nights and Weekends). O movimento surgiu no começo de 2000, com a popularização da tecnologia digital, que tornava a produção de filmes de baixo orçamento mais acessível. Marcado por pouca ênfase técnica e foco na espontaneidade e naturalidade dos diálogos, ele busca a verdade e o real, assim como o longa de Gerwig. Já dizia o padre: “Não precisa ser certo, só precisa ser verdadeiro”. E a expressividade acentuada e terrena das atrizes Saoirse Ronan e Laurie Metcalf realça ainda mais essa naturalidade desenhada pela diretora.

Ao imergirmos nesse contexto realista do filme, acompanhamos o arco de amadurecimento de Lady Bird em sua busca por identidade. Num primeiro momento, seu desejo de autoafirmação constante e sua impulsividade – características da adolescência, particularmente afloradas na personagem – ficam evidentes, por exemplo, quando ela se autodenomina Lady Bird: “[Esse nome] Foi dado a mim, por mim”, ou quando abandona a melhor amiga (Beanie Feldstein) para conquistar um garoto.

Essa autoconfiança e determinação, apesar de serem valores respeitáveis, resultam em atitudes egocêntricas, que encobrem toda a verdade e significância que há nos seus relacionamentos com a amiga, com os pais e a sua cidade. O que produz uma sensível reflexão sobre como, na pressa para atingir objetivos individuais, somos pegos de surpresa pela dor das perdas que existem também em alcançá-los. Para lidar com essas questões, Lady Bird precisou de distanciamento e certa flexibilidade. Só assim adquiriu impulso para voar e encontrar, verdadeiramente, a si mesma: a Christine, de Sacramento.

Trailer Oficial: https://www.youtube.com/watch?v=FX_ZHgdyD4s

Por Gabriela Fonseca.

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