Renato

Renato Vallone, Curso de Montagem 2006, Escola de Cinema Darcy Ribeiro é a Democratização da Linguagem e do Pensamento do Cinema

O documentário Humberto Mauro foi selecionado para o Festival de Veneza, na mostra Venice Classics Documentary Films. O filme dirigido por André Di Mauro, sobrinho-neto do Humberto Mauro, foi montado por Renato Vallone, 36 anos, nascido na Pavuna, Zona Norte do Rio, que cursou montagem na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, em 2006, onde além de estudante foi monitor da ilha de edição, tendo como professores fundamentais Virgínia Flores e Ricardo Miranda. Renato Vallone vem colhendo prêmios com seu trabalho, como o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro pela montagem do documentário Cinema Novo, de Eryk Rocha, filme que ganhou o Olho de Ouro do Festival de Cannes em 2016. Renato Vallone está terminando a montagem do seu primeiro filme de ficção, “Miragem”, também dirigido por Eryk Rocha. Nesta entrevista Renato Vallone, um dos expoentes da Geração Darcy, fala sobre sua carreira.

Início da trajetória profissional?

Renato Vallone – Comecei na Darcy em 2006, tinha recém saída da minha escola técnica, no ensino médio. Eu estava procurando uma escola de animação, e o mais próximo que encontrei foi a Escola Darcy Ribeiro, onde me interessei pelo curso de montagem. Eu  nasci e cresci na Pavuna, subúrbio do Rio. E acho importante falar isso agora, depois de 10 anos de inserção do mercado de trabalho. Na periferia foi onde adquiri a minha formação não técnica, onde está a minha origem. Eu sou periférico e isso faz toda a diferença na hora de fazer um corte de um filme.

O que representou a ECDR

Renato Vallone – A base que eu ganhei na Darcy Ribeiro foi técnica, o primeiro contato com o mercado de trabalho. Falando da formação, eu vivi a experiência de encontro com a Virgínia Flores, quando eu me tornei monitor na Darcy, onde eu ficava zelando pela ilha, agendava os alunos para  exercícios, importava material bruto, eu praticamente ficava o dia inteiro na Darcy Ribeiro. Isso tudo, na verdade foi a minha formação na montagem. A oportunidade de ficar quase integralmente na Darcy Ribeiro. Estudar. Uma coisa importante que eu vivi, parte fundamental da minha formação, foi a chegada do Ricardo Miranda. A Virgínia me ensinou muito a disciplina, a versatilidade Ela era uma professora muito versátil,  que circulava por vários filmes, vários autores. Muito do que eu faço no som hoje vem com a minha formação com a Virgínia Flores. Ela me ensinou as várias camadas do som. Um exercício que ela passou era da trajetória de casa para a Darcy, pra eu desenhar as hierarquias sonoras que me chegavam. As camadas de som inseridas na realidade. Parte da minha formação tema a ver com a gratidão à Virgínia Flores, como ela me fez pensar o cinema. Depois eu tive o privilégio da chegada do Ricardo Miranda que me mostrou a corporeidade da montagem. E a minha relação com eles sempre foi de horizontalidade. Há uma coisa nociva no cinema que é uma tendência de totemizar as pessoas, as relações  no cinema, é não permitir que o cinema seja uma instituição acima de qualquer direito nosso. É preciso ter uma relação saudável com as pessoas, de forma horizontal com essas pessoas.

A Inserção no Mercado de Trabalho

 Renato Vallone – Eu estava quase saindo do Mercado de trabalho, botei o currículo embaixo do braço, como foi a cartinha que fiz pedindo apoio a Escola de Cinema Darcy Ribeiro para estudar, e passei por várias produtoras. E quase sempre eu tinha de dizer que Morava na Zona Sul do Rio, tinha de esconder que Morava na Pavuna. Pois havia uma certa recusa por eu morar longe e que poderia demorar a chegar. Eu tinha de dizer que morava em Copacabana, Botafogo, pra eu conseguir um bico aqui e ali numa produtora, e aos poucos eu fui me inserindo. E encontrei pessoas que também fazem parte da minha formação. Pessoas maravilhosas que me acolheram e comecei a trabalhar com eles. Comecei a criar uma experiência. Depois trabalhei na UniRio com a Regina Abreu, onde trabalhava um material acadêmico, mas sempre com inquietação, a da minha formação que é dos anos 80. O imaginário bélico dos anos 80. Uma experiência que me marcou foi quando eu não pude ver o filme do RoboCop. No dia seguinte eu desenhei o filme todo da minha cabeça. De certa forma eu já tinha, através do desenho e a paixão pelos quadrinhos, uma certa experiência da montagem. Eu tinha uma não técnica que tem a ver com a minha própria história, os meus familiares, a minha base, a minha raiz. E a técnica, com certeza, eu devo à Escola Darcy Ribeiro.

Eryk Rocha, parceria

 Renato Vallone – Muitos artistas das artes visuais foram me procurando. Eu já tido algumas experiências com artistas do Rio. Muita gente além do cinema. Foi até que em 2009 que eu fui pra São Paulo, fazer um curso com o Eryk Rocha, e tive a oportunidade de mostrar para ele que eu acreditava numa forma saudável de relação no mercado de trabalho. A parceria deu certo. A gente está trabalhando juntos quase uma década. Trocando experiências. Aprendemos muito um com o outro. A prova disso foi o nosso reconhecimento através do documentário Cinema Novo, no Festival de Cannes em 2016. Eu já tinha montado dele o longa Campo de Jogo, em 2014, que teve excelentes críticas no mundo todo. O filme que trata do futebol de uma maneira muito especial. Um filme que tenho muito carinho. Antes eu já tinha feito com ele várias series, curtas, e ele foi muito generoso, ele percebeu minha potência e falou que assinaria não como assistência, mas a montagem. A gente consolidou um acordo de potencialidades. De uma certa forma, na prática, está ali uma experiência de horizontalidade na criação. Eu estou disposto a trabalhar com a montagem naquilo que o Ricardo Miranda me ensinou: mostrar de uma forma política e estética, que a montagem é autoria. Eu vou levar pela vida inteira essa herança. Os filmes têm de ser como cunhas que perfuram cérebros mortos. Tudo isso tem a ver com história da Darcy Ribeiro. Um lugar que me provocou, me colocou em situações limites, me colocou em xeque ao pensar e fazer cinema.

Humberto Mauro, Raiz Viva

Renato Vallone – Eu montei em 4 meses, pela primeira vez tive uma assistente, a Josiane Antunes. A experiência com o filme foi muito espiritual. Houve momento que eu sentia que não era o Andre Di Mauro que dirigia e nem eu que montava, mas era o próprio Humberto Mauro. O conceito de montagem foi muito mais sensorial do que em Cinema Novo. Eu decompus os filmes para poder criar uma lógica de atos, que tem a ver com a história do Humberto Mauro. E para além do roteiro que o director me trouxe e das entrevistas filmadas com Alexa, eu propus um choque de montagem que foi abrir totalmente mão das entrevistas digitais, porque achei importante preservar a composição do Humberto Mauro, os planos do Humberto Mauro, que como Glauber diz: compõe como um Porttinari; o Guimarães Rosa do Cinema. O que direcionou a montagem do Humberto Mauro, foi trazer os audios do Humberto Mauro numa conversa viva com o filho dele, o Zeca Mauro. O que permeia o filme, é a conversa em arquivo , muito encontrado na montagem. Usamos basicamente essas conversas, e no final, uma entrevista de Humberto Mauro a Alex Viany. Ao longo do filme, trechos de filmes deles, numa base sólida de trajetória, em que esses filmes decompostos compõe o campo, a cidade e a volta pro campo.

Espalhar a Darcy

Renato Vallone – Eu gostaria muito de ver a Darcy se expandir pelo Brasil. O Norte e o Nordeste. Senão a política publica vai continuar criando monopólios. Para além da criação de uma indústria de cinema, a formação tem de estar em primeiro plano. Senão você vai criar monopólios em regiões de cota. O projeto da Escola de Cinema Darcy Ribeiro é a democratização da linguagem e do pensamento do cinema.

Por Francis Ivanovich.

 


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